Mercado Solar

R$ 57 bi em baterias até 2035: onde o integrador entra

A Deloitte projeta R$ 57 bilhões em armazenamento no Brasil até 2035. De onde vem esse número, o que ele significa de verdade e o que sobra para o integrador

Tiago MartinsTiago Martins10 min de leituraatualizado em 17 de julho de 2026
R$ 57 bi em baterias até 2035: onde o integrador entra

Resposta rápida

A Deloitte, uma das quatro maiores consultorias do mundo, projetou que o mercado brasileiro de armazenamento pode atrair mais de R$ 57 bilhões em investimentos até 2035, em relatório divulgado em junho de 2026. O número foi construído a partir do PDE 2035 da EPE e parte da necessidade estimada de cerca de 1,7 GW para o primeiro leilão de capacidade dedicado a armazenamento, previsto para dezembro de 2026, considerando leilões anuais até 2035. A leitura que o integrador precisa fazer é esta: esse dinheiro é majoritariamente de usina em escala, contratada em leilão, terreno de geradoras e fundos de infraestrutura, e não do mercado que o integrador atende. Mas as forças que criam esses R$ 57 bilhões, o curtailment (o corte de geração imposto quando a rede não consegue absorver toda a energia produzida), a necessidade de flexibilidade e o atendimento à ponta, são exatamente as mesmas que abrem o mercado atrás do medidor, esse sim vendável hoje, sem esperar leilão nenhum.

Introdução

Um número desses circula rápido e vira argumento de venda antes de alguém perguntar de onde ele saiu. R$ 57 bilhões em armazenamento até 2035 soa como confirmação de que o mercado de baterias explodiu e que basta se posicionar. É mais complicado que isso, e entender a diferença separa o integrador que se prepara do que só repete manchete.

O estudo é real, a projeção é séria e o movimento é verdadeiro. O que precisa de tradução é o destino desse dinheiro. Investimento em armazenamento no Brasil não é um bloco único: existe o armazenamento em escala, conectado à rede e contratado por leilão, e existe o armazenamento dentro da unidade consumidora, atrás do medidor. Eles têm compradores diferentes, prazos diferentes e vendedores diferentes.

Este artigo faz três coisas: apresenta o que o estudo efetivamente diz, mostra de onde vem o número, e traduz o que ele significa para quem vende projeto de bateria para comércio, indústria e agro. Inclusive as ressalvas que a própria consultoria fez e que a manchete não carrega.

O que o estudo diz

O relatório é da Deloitte, uma das quatro maiores empresas de auditoria e consultoria do mundo, grupo conhecido no mercado como Big Four. Isso importa para o peso do número: não é projeção de fabricante nem de associação do setor, que teriam interesse comercial no resultado, e sim de uma consultoria independente. O estudo se chama "Sistemas de Armazenamento: desafios, oportunidades e perspectivas para o Setor Elétrico Brasileiro", e ganhou repercussão a partir de 25 de junho de 2026. A projeção central: o mercado brasileiro de armazenamento por baterias tem potencial para movimentar mais de R$ 57 bilhões em investimentos até 2035.

A base de cálculo é oficial. A estimativa foi construída sobre dados do PDE 2035, o Plano Decenal de Expansão de Energia elaborado pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética), a estatal responsável pelo planejamento do setor elétrico brasileiro, considerando a evolução da capacidade instalada de armazenamento e a demanda futura por contratação desses recursos no Sistema Interligado Nacional.

O contexto global que o estudo traz dá a escala do movimento: a capacidade instalada de armazenamento por baterias no mundo saiu de cerca de 1 GW em 2013 para mais de 85 GW em 2023. Só no último ano do período analisado foram adicionados aproximadamente 40 GW, mais que o dobro do ano anterior, segundo dados da Agência Internacional de Energia. China, Europa e Estados Unidos responderam por cerca de 90% dessa capacidade recente.

Do lado brasileiro, os números da EPE completam o quadro. O PDE 2035 indica que o país pode incorporar cerca de 7 GW em armazenamento e outros 3 GW em mecanismos de resposta da demanda até 2035. O plano decenal aponta ainda necessidade de 55 GW adicionais de potência até 2034, dos quais aproximadamente 9 GW poderiam ser atendidos por sistemas de armazenamento. O presidente da EPE, Thiago Prado, afirmou que o PDE 2036, previsto para o segundo semestre, deve confirmar essa tendência.

De onde vem o número, e por que isso importa

Aqui está o detalhe que muda a leitura, e que a manchete não conta.

O cálculo dos R$ 57 bilhões parte da necessidade estimada de aproximadamente 1,7 GW para o primeiro leilão de capacidade voltado a sistemas de armazenamento, previsto para dezembro de 2026, e considera a realização de certames anuais até 2035.

Ou seja: a projeção é ancorada em leilão. Leilão de reserva de capacidade é o ambiente onde geradoras, investidores e fundos de infraestrutura disputam contratos para instalar armazenamento em escala conectado à rede. É o mundo do front-of-the-meter, na frente do medidor, com projetos de centenas de MW, financiamento estruturado e receita vinda de contrato regulado.

O integrador não vende nesse mercado. Ele não participa de leilão de reserva de capacidade, não constrói usina de 100 MW e não disputa contrato com o operador do sistema. Então repetir "o mercado de baterias vai movimentar R$ 57 bilhões" como se fosse o próprio mercado é confundir dois negócios diferentes que dividem a mesma palavra.

Isso não torna o número irrelevante. Torna ele um indicador, e não um endereço.

O que esse movimento realmente destrava para o integrador

O valor dos R$ 57 bilhões, para quem vende projeto, está no que eles arrastam junto.

O primeiro efeito é regulatório. Em junho de 2026, a ANEEL publicou a regulamentação dos Sistemas de Armazenamento de Energia (SAE), definindo parâmetros de autorização, conexão, operação e remuneração. Um ponto de destaque: a cobrança da tarifa de uso da rede apenas no momento da descarga, para sistemas integralmente despachados pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico, responsável por coordenar a operação das usinas e da rede no país), evitando a dupla cobrança que penalizava o armazenamento. Regra clara para o grande também é regra clara para o pequeno, porque define o vocabulário e o tratamento da bateria no sistema elétrico.

O segundo efeito é de ecossistema. Um mercado que atrai dezenas de bilhões traz fabricantes para o país, aumenta a oferta de equipamento homologado, amplia a rede de assistência técnica e pressiona preço para baixo. O integrador que vende BESS comercial em 2028 vai comprar de uma cadeia que existe porque o utility-scale a puxou.

O terceiro efeito, e o mais importante, é que as causas são compartilhadas. O que justifica R$ 57 bilhões em armazenamento em escala é a expansão acelerada de solar e eólica, o aumento do curtailment, a necessidade de atender à ponta, o crescimento da geração distribuída e a busca por flexibilidade na operação do sistema. São exatamente as mesmas forças que empurram o cliente comercial e industrial para a bateria atrás do medidor.

E aqui está a assimetria que favorece o integrador: o mercado atrás do medidor não espera leilão. Enquanto o utility-scale depende do certame de dezembro de 2026 e dos seguintes, o armazenamento na unidade consumidora avança pela economia direta na fatura, corte de demanda de ponta, arbitragem tarifária, resiliência e aproveitamento de geração que seria cortada. Analistas de mercado registram que o avanço das baterias é impulsionado tanto pelos leilões de reserva de capacidade quanto por aplicações comerciais fora do ambiente regulado, como projetos híbridos com solar e eólica, arbitragem de preços, gestão de demanda, serviços ancilares, backup para grandes consumidores e redução da exposição a cortes de geração.

Traduzindo: os R$ 57 bilhões são a prova de que o problema existe. O integrador vende a solução desse mesmo problema, em outra escala, e pode vender agora.

As ressalvas que a manchete não carrega

Duas coisas precisam ser ditas para o post não virar euforia.

A primeira é que a própria Deloitte condicionou a projeção. Para viabilizar esses investimentos, a consultoria aponta que o país precisa avançar na estruturação de um mercado de serviços ancilares, na clareza do marco regulatório para esses projetos e no aperfeiçoamento dos sinais de preço. São condições, não certezas. R$ 57 bilhões é potencial, não contrato assinado.

A segunda é que existe divergência qualificada sobre o timing. Em declaração recente, a Hitachi Energy avaliou que o Brasil perdeu o melhor momento para contratar baterias, ainda que considere o leilão necessário. Soma-se a isso que o país caiu para a quinta posição no mercado solar global, com desaceleração da expansão, segundo levantamento de junho de 2026. O movimento do armazenamento é real, mas convive com um mercado solar que perdeu ritmo.

Quem repassa a manchete sem as ressalvas constrói uma expectativa que o cliente vai cobrar depois. Quem apresenta o número com o contexto ganha a autoridade de quem leu o estudo, e não o título.

Como o Soffcal se encaixa

O mercado que os R$ 57 bilhões sinalizam é o mesmo que o integrador atende em outra escala: cliente comercial, industrial ou rural que precisa cortar demanda de ponta, fazer arbitragem, garantir backup ou aproveitar a geração que a rede não aceita. A diferença é que esse cliente compra agora e não depende de leilão.

O Soffcal dimensiona a base desse projeto: a partir do consumo, calcula a potência mínima do inversor, o banco de baterias LFP, a quantidade total de painéis e a geração FV, e gera a proposta comercial padronizada. É o que transforma a tendência de mercado em um orçamento defensável na frente de um cliente que decide por número.

A camada de arquitetura, controle e operação, além da escolha de equipamento, segue com o integrador. O que a plataforma resolve é a conta que precede a venda, para que ela saia padronizada e no tamanho certo.

Perguntas frequentes

De onde vem a projeção de R$ 57 bilhões em armazenamento?

Do relatório "Sistemas de Armazenamento: desafios, oportunidades e perspectivas para o Setor Elétrico Brasileiro", da Deloitte, divulgado em junho de 2026. A estimativa foi construída com base no PDE 2035 da EPE e parte da necessidade de cerca de 1,7 GW para o primeiro leilão de capacidade dedicado a armazenamento, previsto para dezembro de 2026, considerando leilões anuais até 2035.

Esses R$ 57 bilhões são o mercado do integrador?

Não diretamente. O cálculo é ancorado em leilões de reserva de capacidade, ou seja, armazenamento em escala conectado à rede, terreno de geradoras e fundos de infraestrutura. O integrador atua no armazenamento atrás do medidor, dentro da unidade consumidora. São mercados diferentes, movidos pelas mesmas causas.

Quanto de armazenamento o Brasil deve instalar até 2035?

Segundo o PDE 2035 da EPE, o país pode incorporar cerca de 7 GW em armazenamento e outros 3 GW em mecanismos de resposta da demanda até 2035. O plano aponta ainda necessidade de 55 GW adicionais de potência até 2034, dos quais aproximadamente 9 GW poderiam ser atendidos por armazenamento.

Quando acontece o primeiro leilão de baterias no Brasil?

O primeiro leilão de reserva de capacidade dedicado a armazenamento está previsto para dezembro de 2026. ONS e EPE já publicaram nota técnica com os requisitos mínimos do certame, avançando na estruturação técnica dele.

O que ainda pode travar esses investimentos?

A própria Deloitte aponta condições: o Brasil precisa estruturar um mercado de serviços ancilares, dar clareza ao marco regulatório desses projetos e aperfeiçoar os sinais de preço. A projeção é potencial, não garantia. Há também divergência sobre o timing, com avaliações de que o país perdeu o melhor momento para contratar baterias.

Conclusão

R$ 57 bilhões até 2035 é um número real, com base oficial e origem clara: leilões anuais de capacidade a partir do certame de dezembro de 2026. É a prova de que o sistema elétrico brasileiro precisa de flexibilidade e que a bateria virou infraestrutura, não experimento.

Para o integrador, a leitura correta não é "vou pegar um pedaço desses R$ 57 bilhões", porque esse dinheiro corre por leilão, num mercado que ele não disputa. A leitura correta é que as causas desse investimento, curtailment, ponta, flexibilidade, expansão renovável, são as mesmas dores que o cliente comercial e industrial sente na fatura hoje. E essa venda não espera leilão nenhum.

Enquanto o utility-scale se organiza para dezembro, o mercado atrás do medidor já está aberto. Dimensione esse projeto no Soffcal, calcule banco, painéis e potência mínima de inversor, e leve ao cliente a proposta que resolve, na escala dele, o mesmo problema que move bilhões na escala do sistema.

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Sobre o autor

Tiago Martins

Tiago Martins

CEO e Fundador do Soffcal

Tiago Martins é Engenheiro Mecânico, com MBA em Gestão Exponencial pelo IBMEC/XP, e atua no mercado de energia solar desde 2018. Durante 6 anos, foi sócio de uma empresa especializada em projetos e instalação de sistemas fotovoltaicos, acumulando experiência prática em mais de 1.200 usinas instaladas. Após vender sua participação na empresa, decidiu focar em uma das principais dores do mercado solar: a dificuldade de dimensionar sistemas com baterias, como sistemas híbridos, off-grid e BESS. Em 2025, fundou o Soffcal, um SaaS desenvolvido para ajudar profissionais do setor a calcular sistemas fotovoltaicos on-grid e sistemas com baterias de forma mais rápida, técnica e segura.

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