Sistema Híbrido

Backup híbrido: dimensionar bateria sem estourar orçamento

Cliente quer backup da casa inteira e o orçamento explode. Veja como mapear cargas críticas, separar prioridades e dimensionar a bateria certa para fechar a venda.

Tiago MartinsTiago Martins19 min de leitura
Backup híbrido: dimensionar bateria sem estourar orçamento

Resposta rápida

A pergunta certa no levantamento de backup não é "quanto consome a casa?", é "o que precisa continuar funcionando quando a rede cair?". Backup da casa inteira (incluindo ar-condicionado, chuveiro elétrico, ferro de passar, secadora) costuma inviabilizar o projeto pelo preço da bateria, e o orçamento estoura na primeira proposta. A solução é separar cargas em três níveis (essenciais, de conforto e de luxo) e dimensionar a bateria apenas para as essenciais, com possibilidade de adicionar cargas de conforto se o orçamento couber. Cargas essenciais típicas (geladeira inverter, iluminação LED, internet, TV, segurança, carregadores) somam tipicamente 3 a 6 kWh por dia, o que cabe em um banco de 10 a 15 kWh com folga de 12 a 24 horas de autonomia. Já um ar-condicionado de 12.000 BTUs ligado 4 horas consome sozinho 5 kWh, sobrecarregando o banco. O Soffcal apoia o integrador a estruturar essa conversa com o cliente, gerando proposta defensável baseada em cargas reais.

Introdução

A conversa começa parecida em quase toda visita técnica residencial: o cliente quer "energia solar com bateria para a casa não parar no apagão". Quando o integrador pergunta o que precisa funcionar, vem a resposta clássica: "tudo, claro". Aí entra o ar-condicionado, o chuveiro elétrico, a secadora, a piscina aquecida. O integrador faz a conta de cabeça e percebe que o orçamento vai para o céu. Apresenta o preço e o cliente desiste, ou pior, leva a proposta para o concorrente que vai dimensionar errado e entregar um sistema que falha no comissionamento.

O erro central nessa conversa não é técnico, é de enquadramento. O integrador aceita "tudo" como requisito e tenta resolver o impossível. A proposta correta é educar o cliente a separar cargas essenciais (que ele realmente não pode ficar sem) de cargas de conforto (que ele prefere ter, mas pode esperar) e de cargas de luxo (que claramente não precisam de backup). Esse mapeamento é o que viabiliza a venda: o banco fica do tamanho certo, o preço cabe no orçamento, e o cliente fecha satisfeito porque entendeu o que está comprando.

Este artigo explica como mapear cargas críticas em uma visita técnica residencial, qual o consumo típico de cargas comuns (com números reais que o integrador pode usar na proposta), por que ar-condicionado em backup é a maior armadilha do dimensionamento, e como apresentar a proposta ao cliente para evitar a frustração do "queria mais barato". É o método que separa o profissional que fecha venda de bateria do que apresenta proposta inviável e perde o cliente.

A regra de ouro: backup não é redundância da rede

Antes do método, o princípio. Backup com bateria não foi feito para substituir a rede da concessionária. Foi feito para manter o essencial funcionando quando a rede cai. Tentar fazer com que a bateria sustente o consumo completo da casa equivale a transformar o sistema em off-grid, com banco muito maior, painéis para recarregar diariamente e Capex próximo do dobro.

A maioria dos clientes residenciais não precisa disso. Precisa que a geladeira não estrague a comida, que a internet não caia, que a iluminação noturna funcione, que o portão eletrônico opere, que a TV não desligue no meio do filme. Isso é diferente de manter ar-condicionado, chuveiro, ferro de passar e máquina de lavar simultaneamente em apagão. A diferença não é só de preço; é de natureza do projeto.

A primeira tarefa do integrador é, portanto, explicar essa diferença ao cliente antes de fazer qualquer cálculo. Educar o cliente é parte do dimensionamento.

Os três níveis de carga

A separação prática que funciona em visita técnica:

Nível 1: cargas essenciais (sempre no backup)

São as cargas que o cliente realmente não pode ficar sem por algumas horas a um dia inteiro. Em uma residência típica:

  • Geladeira ou refrigerador: indispensável. Alimentos estragam em 4 horas com porta fechada.
  • Freezer (se houver): segue o mesmo princípio.
  • Iluminação LED dos cômodos principais: cozinha, banheiros, sala, quartos.
  • Roteador e modem da internet: indispensável para trabalho remoto e segurança.
  • Sistema de segurança: câmeras, alarme, portão eletrônico.
  • Carregadores de celular e notebook: emergência básica.
  • TV principal (geralmente uma): para informação e distração durante o apagão.
  • Caso haja: equipamento médico (CPAP, oxigenoterapia, refrigeração de medicamento), poço artesiano com bomba, animais com aquário/incubadora.

Nível 2: cargas de conforto (no backup se o orçamento couber)

São as cargas que o cliente "gostaria de manter", mas que aceita perder por algumas horas:

  • Ventiladores: alternativa ao ar-condicionado, consumo muito menor.
  • Cafeteira, micro-ondas: uso intermitente, alguns minutos por vez.
  • TVs secundárias, computadores adicionais, consoles de jogos.
  • Iluminação de áreas externas, jardim, garagem.
  • Lavadora de roupa (uso eventual, pode aguardar a rede voltar).

Nível 3: cargas de luxo ou alto consumo (fora do backup)

São as cargas que raramente fazem sentido em backup, pelo consumo elevado ou pela natureza do uso:

  • Ar-condicionado (especialmente vários, simultâneos).
  • Chuveiro elétrico (5.500 W, consumo massivo).
  • Ferro de passar (1.000 a 2.000 W em uso contínuo).
  • Secadora de roupa, máquina de lavar com aquecimento.
  • Aquecimento de piscina, aquecedor de água a resistência.
  • Fogão por indução (uso intermitente, mas potência alta).
  • Ducha higiênica elétrica.

A regra: o cliente pode esperar a rede voltar para usar essas cargas. Em apagões longos (raros nas capitais brasileiras), o desconforto é aceitável diante do custo de dimensionar bateria para tudo.

Consumo típico de cargas residenciais (referência para a visita técnica)

Para o integrador montar a conta na visita, uma referência de consumo aproximado de cargas comuns. Valores típicos para equipamentos modernos com tecnologia inverter (selo Procel A). Equipamentos antigos podem consumir 30% a 80% mais.

CargaPotência típica (W)Consumo (kWh/dia)Categoria
Geladeira inverter (340 a 450 L)150 a 200 (média)3,3 a 3,7Essencial
Freezer horizontal100 a 150 (média)2,4 a 3,6Essencial
Iluminação LED (casa inteira)100 a 300 (uso à noite)0,5 a 1,5Essencial
Roteador + modem15 a 300,4 a 0,7Essencial
TV LED 50"100 a 1500,4 a 0,8 (4 a 6 h)Essencial
Câmeras + alarme20 a 500,5 a 1,2Essencial
Notebook + celular (carregando)60 a 1000,2 a 0,5Essencial
Microondas1.200 (uso 10 min/dia)0,2Conforto
Cafeteira800 a 1.000 (uso 5 min/dia)0,1Conforto
Ventilador de teto60 a 1000,4 a 0,8Conforto
Ar-condicionado 9.000 BTUs inverter800 a 9003,2 a 3,6 (4 h)Luxo
Ar-condicionado 12.000 BTUs inverter1.000 a 1.2004 a 4,8 (4 h)Luxo
Ar-condicionado 18.000 BTUs inverter1.400 a 1.6005,6 a 6,4 (4 h)Luxo
Chuveiro elétrico5.500 a 7.5000,9 a 1,3 (10 min)Luxo
Ferro de passar1.000 a 2.0000,5 a 1 (30 min)Luxo
Secadora de roupa2.000 a 3.0002 a 3 (1 h)Luxo

Somando o cenário essencial típico (geladeira + iluminação + roteador + TV + segurança + carregadores), o consumo fica em 3 a 6 kWh por dia. É a faixa em que o cálculo de bateria começa a fechar para a maioria das residências.

Por que ar-condicionado quebra o orçamento de backup

O ar-condicionado é o ponto que mais entra na conversa do cliente e o que mais inviabiliza a venda. Vale entender por quê.

Um ar-condicionado split inverter de 12.000 BTUs consome aproximadamente 1,2 kWh por hora. Ligado por 4 horas (uma noite quente em região tropical), consome 4,8 kWh sozinho. Se a casa tem dois aparelhos (um no quarto principal e outro na sala), são quase 10 kWh por dia só de ar-condicionado.

Para sustentar essa carga em backup por 12 horas (uma noite mais um período de manhã sem rede), o banco precisa ter capacidade adicional de 14 a 15 kWh úteis, somados aos 3 a 6 kWh das cargas essenciais. O banco total chega a 20 a 25 kWh úteis, o que em LFP com 90% de DoD significa 22 a 28 kWh nominais. O custo da bateria triplica em relação ao backup só de cargas essenciais.

E há um ponto técnico adicional: ar-condicionado moderno com tecnologia inverter tem partida suave, então não causa o pico de partida clássico de motores convencionais (que seria 4 a 8 vezes a corrente nominal). Isso significa que o inversor do sistema híbrido não precisa ser superdimensionado para acomodar esse surto. Mas o consumo contínuo segue alto, e o problema permanece. Aparelhos antigos, pré-inverter, têm partida direta e consumo contínuo maior, e quebram o sistema duas vezes.

A conclusão prática para o integrador: ar-condicionado em backup é decisão consciente, não default. Se o cliente faz questão, o sistema é dimensionado para isso, com Capex correspondente, e a proposta é feita com o número honesto. Se o cliente aceita perder o ar no apagão, o banco fica metade do tamanho e o projeto fecha.

Como conduzir a conversa com o cliente

O método em quatro passos para a visita técnica:

1. Apresentar a regra de ouro logo no início

Antes de fazer levantamento, explicar ao cliente que backup com bateria não é redundância da rede inteira, é proteção do essencial. Mostrar (com a tabela do artigo, com a calculadora, ou com exemplos verbais) que sustentar a casa inteira incluindo ar-condicionado, chuveiro e cargas pesadas tende a duplicar ou triplicar o custo do sistema. O cliente, ao entender que a conta sobe muito, normalmente aceita repensar.

2. Listar as cargas em três níveis junto com o cliente

Caminhar pela casa com o cliente, listar carga por carga, e classificar em essencial, conforto ou luxo. Esse passo é tão técnico quanto comercial: faz o cliente perceber, com seus próprios olhos, que metade do que ele queria proteger pode esperar a rede voltar sem problema real.

Exemplo de pergunta certa: "se a luz cair às 19h numa quinta-feira e voltar às 8h da manhã de sexta, o que precisa ter funcionado durante essas 13 horas? Sem o ar-condicionado, dormir é incômodo, mas é viável. Sem geladeira, o que perde de comida?"

3. Apresentar dois cenários, um realista e um aspiracional

O profissional volta para casa, dimensiona dois sistemas:

  • Cenário A (essenciais): banco para cargas críticas, 10 a 15 kWh nominais, autonomia confortável de 12 a 24 horas, preço acessível.
  • Cenário B (essenciais + ar-condicionado de um cômodo): banco para essenciais + ar-condicionado de 12.000 BTUs ligado por algumas horas, 20 a 25 kWh nominais, autonomia de 8 a 12 horas, preço maior.

Apresentar os dois cenários ao cliente com os números claros (preço, autonomia, o que está coberto). Cliente decide. Em 90% dos casos, o cenário A fecha, porque a relação custo-benefício é evidente. Em 10%, o cliente paga o cenário B por opção consciente. Em zero casos, o cliente fica frustrado com surpresa.

4. Documentar a decisão na proposta

Na proposta comercial, deixar explícito o que está em backup e o que não está. Lista clara de cargas protegidas e cargas excluídas. Isso evita reclamação futura ("mas eu pensei que o ar-condicionado funcionava") e fortalece a postura técnica do profissional.

Cálculo simples: o método em três fórmulas

Para o integrador que quer fazer a conta na própria visita (sem software), o método rápido:

Fórmula 1: consumo das cargas críticas

E_diária = Σ (Potência × Horas de uso por dia) / 1000

Para cada carga no Nível 1 (essencial), multiplicar a potência em watts pelas horas estimadas de uso por dia, somar tudo e dividir por 1.000 para obter kWh/dia.

Fórmula 2: capacidade nominal do banco

kWh_banco = (E_diária × Horas_autonomia / 24) / (DoD × η)

Onde:

  • E_diária é o consumo diário das cargas críticas em kWh.
  • Horas_autonomia é o tempo de backup desejado sem rede (típico: 12 a 24 horas para residencial).
  • DoD é a profundidade de descarga utilizável da bateria, do datasheet (LFP: 80% a 95%).
  • η é a eficiência round-trip do conjunto (inversor + bateria), tipicamente 0,85 a 0,92.

Fórmula 3: potência do inversor

P_inversor = Σ (Potência das cargas que podem ligar simultaneamente) × margem

Onde a margem cobre folga operacional, tipicamente 10% a 20%. A soma considera o pior caso de cargas críticas ligadas ao mesmo tempo (não a soma de todas, apenas as que normalmente coincidem). Em apagão, é normal o cliente reduzir o uso para o essencial.

Exemplo numérico fechado: residência típica em apagão

Cenário ilustrativo, com números aproximados.

Cargas essenciais identificadas

  • Geladeira inverter: 180 W médio, 24 h por dia → 4,3 kWh/dia.
  • Iluminação LED (uso real à noite): 200 W médio, 5 h → 1,0 kWh/dia.
  • Roteador + modem: 25 W, 24 h → 0,6 kWh/dia.
  • TV LED 50" (uso noturno): 130 W, 4 h → 0,5 kWh/dia.
  • Câmeras + alarme: 35 W, 24 h → 0,8 kWh/dia.
  • Carregadores: 40 W médio, 5 h → 0,2 kWh/dia.
  • Total: 7,4 kWh/dia (cenário com freezer e geladeira ambos rodando).

Ajuste para 12 horas de autonomia (uma noite sem rede): 7,4 × 12/24 = 3,7 kWh úteis.

Capacidade nominal do banco

Aplicando DoD de 0,90 e eficiência de 0,88:

kWh_banco = 3,7 / (0,90 × 0,88) = 3,7 / 0,792 = 4,7 kWh

Banco mínimo: 5 kWh nominais. Na prática, usa-se um módulo comercial de 5 kWh, que entrega o necessário com margem.

Cenário com ar-condicionado de 12.000 BTUs por 4 horas

Adicionando 1,2 kWh/h × 4 h = 4,8 kWh ao consumo essencial:

  • Consumo essencial em 12 h: 3,7 kWh.
  • Consumo do ar em 4 h: 4,8 kWh.
  • Total: 8,5 kWh úteis.

Banco com DoD 0,90 e eficiência 0,88: 8,5 / 0,792 = 10,7 kWh nominais.

A bateria mais que dobra só pelo ar-condicionado de um cômodo, ligado por quatro horas, o que mostra concretamente por que essa carga sai do default e vira opção consciente. O cliente vê o número, e a decisão fica fácil.

Potência do inversor (ambos os cenários)

Soma das cargas críticas simultâneas (no pior caso de tudo ligado ao mesmo tempo, o que raramente acontece de fato em apagão): aproximadamente 600 W (cargas essenciais sem ar) ou 1.800 W (cargas essenciais + ar de 12.000 BTUs). Com margem de 20%, dimensionar inversor de 3 kW para o cenário essencial ou 5 kW para o cenário com ar-condicionado. Modelos comerciais comuns atendem ambos.

Erros comuns no dimensionamento de backup residencial

  1. Aceitar "tudo" como requisito sem questionar. Os 4 anos de experiência do integrador antigo se concentram justamente na conversa de educação do cliente. Sem essa conversa, qualquer dimensionamento técnico vira proposta inviável.
  2. Calcular bateria pelo consumo médio mensal. "A casa consome 500 kWh/mês, então..." é a fórmula errada. Bateria de backup se calcula pelo consumo das cargas críticas no período de autonomia desejado, não pelo consumo médio total.
  3. Esquecer que ar-condicionado moderno é inverter. O inversor do sistema híbrido não precisa de surto monstruoso. O dimensionamento do inversor é pela carga contínua, não pelo pico de partida (que em inverter é desprezível). O problema do ar-condicionado é a duração de consumo, não o pico.
  4. Dimensionar tudo pelo modo ilha. Em backup, o cliente reduz o uso. Não vai estar com TV principal, TV secundária, micro-ondas, cafeteira e máquina de lavar funcionando ao mesmo tempo às 22h. O inversor é dimensionado pelo pior caso realista, não pelo pior caso teórico.
  5. Não documentar o que está protegido. Sem lista clara na proposta, o cliente lembra do que quis e esquece do que combinou. Documentação evita atrito pós-venda.
  6. Confundir cliente com tecnicismo desnecessário. O cliente residencial não precisa entender DoD, eficiência round-trip e C-rate na primeira conversa. Ele precisa saber: "quanto tempo o quê fica ligado por quanto dinheiro". A engenharia fica no Soffcal, e a conversa fica simples.
  7. Apresentar uma única proposta. Apresentar dois cenários (essencial e essencial + alguma carga de conforto) dá ao cliente o poder de escolher e fortalece a postura consultiva do profissional.

Como o Soffcal apoia o integrador a fechar essa venda

O Soffcal é um software de dimensionamento solar focado em sistemas com baterias (híbrido, off-grid e BESS), além de on-grid em três modos. Para o dimensionamento de backup residencial, a plataforma entrega:

  • Cálculo padronizado do banco LFP a partir das cargas críticas e da autonomia desejada informadas pelo profissional, com DoD e eficiência do datasheet aplicados corretamente.
  • Potência mínima do inversor pela carga simultânea, com margem para inversor adequado ao porte residencial.
  • Geração FV mínima para complementar o consumo e recompor o banco em ciclos.
  • Proposta comercial pronta com os parâmetros do projeto explícitos, fortalecendo a venda técnica.

A grande vantagem é transformar a conversa do "preço alto demais" em "dois cenários claros para escolher". O integrador roda o cálculo do cenário essencial em minutos, roda o cenário com ar-condicionado em mais alguns minutos, apresenta os dois ao cliente e fecha o que faz sentido. A análise das cargas críticas com o cliente, a conversa de educação sobre backup, e a decisão final do escopo continuam sendo responsabilidade do profissional. O Soffcal entrega a base técnica que sustenta tudo isso e libera o profissional para focar na conversa estratégica.

Perguntas frequentes

Quanto tempo de autonomia minha casa precisa em backup?

Para a maioria das residências em áreas urbanas brasileiras, 12 a 24 horas de autonomia para cargas essenciais cobrem a quase totalidade dos apagões reais. A ANEEL reporta que o tempo médio sem energia por consumidor brasileiro em 2024 foi de cerca de 10 horas no ano inteiro, com a maior parte das ocorrências sendo de poucas horas. Para regiões com quedas mais frequentes ou clientes com cargas críticas (trabalho remoto, equipamento médico), pode fazer sentido dimensionar para 24 a 48 horas. Para residências em zonas rurais com rede precária, considerar autonomia ainda maior.

Dá para colocar o ar-condicionado em backup com bateria?

Tecnicamente sim, mas o custo da bateria sobe muito. Um ar-condicionado split inverter de 12.000 BTUs consome cerca de 4,8 kWh em 4 horas de uso. Para sustentar essa carga em backup, o banco precisa ter capacidade adicional substancial, o que normalmente dobra ou triplica o custo do sistema em relação ao backup de cargas essenciais. Para a maioria dos clientes, a relação custo-benefício não fecha. A recomendação é considerar essa opção consciente, com proposta apresentada lado a lado com o cenário só de essenciais.

Quais cargas devem ficar no backup residencial?

As cargas que o cliente realmente não pode ficar sem por horas a um dia inteiro: geladeira (alimentos), freezer (se houver), iluminação LED dos cômodos principais, roteador e modem da internet, sistema de segurança (câmeras, alarme, portão eletrônico), TV principal para informação, carregadores de celular e notebook, e cargas críticas específicas (equipamento médico, bomba de poço artesiano). Cargas de conforto (ventiladores, micro-ondas, cafeteira) podem entrar se o orçamento couber. Cargas de alto consumo (ar-condicionado, chuveiro elétrico, secadora) normalmente ficam fora.

Quanto consome um ar-condicionado inverter em backup?

Um ar-condicionado split inverter consome aproximadamente: 9.000 BTUs cerca de 0,9 kWh por hora; 12.000 BTUs cerca de 1,2 kWh por hora; 18.000 BTUs cerca de 1,5 kWh por hora. Ligado por 4 horas a uma noite, são 3,6 a 6 kWh somente de ar-condicionado, valor que com frequência supera o consumo de todas as outras cargas essenciais somadas. Em projetos residenciais novos, cuidar para validar que o aparelho é mesmo inverter, e não modelo antigo, que pode consumir 30% a 80% mais.

Como calcular o banco de baterias para backup residencial?

Três passos: (1) somar o consumo das cargas críticas em kWh/dia, multiplicando potência em watts por horas de uso e dividindo por 1.000; (2) aplicar a fórmula kWh_banco = (E_diária × Horas_autonomia / 24) / (DoD × eficiência), com DoD da bateria escolhida (LFP 80-95%) e eficiência do conjunto (0,85-0,92); (3) escolher o módulo comercial imediatamente acima do calculado. Em paralelo, dimensionar o inversor pela carga simultânea com margem de 10-20%. O Soffcal automatiza esse cálculo e gera proposta pronta.

Por que minha proposta de bateria ficou tão cara?

Porque provavelmente está dimensionada para sustentar cargas de alto consumo (ar-condicionado, chuveiro, secadora) em backup. Cada uma dessas cargas dobra ou triplica o tamanho do banco. A solução é refazer o levantamento com o cliente, separar cargas essenciais (que precisam de backup) das cargas de conforto e luxo (que podem esperar a rede voltar). O banco redimensionado para essenciais costuma ficar em 10 a 15 kWh nominais, com preço acessível para a maioria das residências.

A geladeira moderna tem pico de partida que sobrecarrega o inversor?

Geladeiras inverter modernas (vendidas no Brasil nos últimos anos) têm partida suave por controle eletrônico do compressor, sem pico significativo de corrente. Geladeiras antigas, pré-inverter, com partida direta de motor convencional, sim, têm pico de partida de 4 a 8 vezes a corrente nominal. No dimensionamento do inversor, considerar isso: residências com equipamentos brancos modernos não precisam de inversor com surto exagerado. Residências com equipamentos antigos remanescentes (geladeira velha, ar-condicionado convencional, bomba d'água) podem precisar de margem maior.

Posso adicionar mais bateria depois?

Sim, geralmente. Bancos LFP modulares (5 kWh por módulo, em geral) permitem expansão futura, desde que a topologia escolhida no projeto inicial seja compatível e que o inversor suporte capacidade adicional. Vale conferir o datasheet do conjunto e deixar a possibilidade prevista no projeto. Em conversas com clientes em dúvida entre "essencial agora" e "essencial + conforto depois", essa flexibilidade é argumento forte.

Conclusão

A diferença entre um projeto de backup residencial que fecha e um que perde a venda raramente está no cálculo técnico. Está na conversa inicial com o cliente. Aceitar "tudo" como requisito vira proposta inviável; conduzir o cliente a separar cargas essenciais de cargas de conforto e luxo vira proposta realista. O método é simples: explicar a regra de ouro, listar cargas em três níveis, apresentar dois cenários, documentar o que está protegido.

Cargas essenciais típicas de residência somam 3 a 6 kWh por dia, viáveis em bancos LFP de 10 a 15 kWh com autonomia confortável. Ar-condicionado e cargas de alto consumo em backup são decisões conscientes do cliente, não default da proposta. Quando o profissional explica isso com números concretos, o cliente entende, decide, e o projeto fecha.

Para dimensionar o banco e o inversor do sistema híbrido residencial com base nas cargas críticas mapeadas, com parâmetros reais de datasheet e proposta comercial pronta para apresentar ao cliente, o Soffcal entrega como software de dimensionamento solar focado em sistemas com baterias. A conversa de educação do cliente e a engenharia de instalação continuam com o profissional, e este artigo é o método para transformar a pergunta impossível ("quero backup pra tudo") em proposta que fecha.

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Sobre o autor

Tiago Martins

Tiago Martins

CEO e Fundador do Soffcal

Tiago Martins é Engenheiro Mecânico, com MBA em Gestão Exponencial pelo IBMEC/XP, e atua no mercado de energia solar desde 2018. Durante 6 anos, foi sócio de uma empresa especializada em projetos e instalação de sistemas fotovoltaicos, acumulando experiência prática em mais de 1.200 usinas instaladas. Após vender sua participação na empresa, decidiu focar em uma das principais dores do mercado solar: a dificuldade de dimensionar sistemas com baterias, como sistemas híbridos, off-grid e BESS. Em 2025, fundou o Soffcal, um SaaS desenvolvido para ajudar profissionais do setor a calcular sistemas fotovoltaicos on-grid e sistemas com baterias de forma mais rápida, técnica e segura.

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